LET'S GET UNCONSCIOUS HONEY

sexta-feira, 14 de maio de 2010

A Corrida

Foi esta manhã. Levantei-me cedo e comecei a correr.
Corri, corri, corri...

Corri da minha família que não me entende;
Corri da minha mãe que me fere sem causar danos físicos;
Corri do meu pai que acha que sou um problema;
Corri pra não acreditar nele.
Corri dos meus amigos para deixar de decepcioná-los;
Corri da escola que desperta meus demônios adormecidos;
Corri do trabalho que mais parece uma selva.
Corri da multidão que me cerca e me sufoca;
Corri da solidão que me angustia e apavora;
Corri da carência que ambas me trazem.
Corri, corri, corri...

Corri da minha vida profissional que já bate em minha porta;
Corri da vida amorosa que todos já cobram;
Corri da cobrança de todos para que me torne o que eles sonham.
Corri do medo de viver que me consome;
Corri da responsabilidade e da pressão do mundo;
Corri da pressão que faço sobre mim mesmo, do medo de decepcionar.
Corri das palavras afiadas que são ditas, doem demais;
Corri dos juízes que julgam implacáveis e dos carrascos também.
Corri da morte que ameaça tomar quem eu amo;
Corri porque não tinha medos e porque estava repleto deles.
Corri, corri, corri...

Corri da desgraça que observo todo dia;
Corri da injustiça que contorce meu coração.
Corri da bonança e da angústia, do riso e do peso da consciência dos maus;
Corri da dor e da fé, da lágrima e da consciência limpa dos bons.
Corri da sabedoria e da inteligência que parecem mais distantes a cada nova informação;
Corri da ignorância também.
Corri da saúde e da alegria que são sempre invejadas;
Corri da doença e da tristeza que são sempre exageradas.
Corri dos que pensam ser melhores que os outros;
Corri dos que pensam ser piores.
Corri, corri, corri...

Corri da intolerância e da tolerância excessiva;
Corri da ira e da omissão;
Corri da ingratidão e da submissão;
Corri da fome e da gula;
Corri da avareza e da luxúria;
Corri da ganância e do conformismo;
Corri da impunidade e da punição exagerada.
Corri do amor que só me faz chorar;
Corri da maldade que anda me fazendo rir.
Corri da alegria que sempre vai embora e da tristeza que sempre volta.
Corri, corri, corri...

Corri para a escuridão onde nada tem cor e onde nada me perturba;
Corri para onde ninguém me acharia;
Corri para onde só ouço minha voz e meus pensamentos;
Corri para onde só ouço meu choro e minha gargalhada.
Corri para onde ninguém me fere e eu não firo ninguém;
Corri para longe das pessoas;
Corri de quem odeio e de quem amo;
Corri de quem nem conheço;
Corri de tudo e de todos.
Corri de mim mesmo...
Corri, corri, corri...

Continuo correndo, e já anoiteceu. Várias vezes. E a vontade de correr ainda não passou. Mas não se preocupe, toda corrida acaba, cedo ou tarde. Seja por acabar a energia, seja por alcançar o objetivo, seja por desistência.
Não tente entender minha corrida, não tente participar. É uma corrida sem explicação convincente e é uma corrida solitária.

É apenas uma corrida. Uma corrida só minha. Esse foi apenas um relato do dia em que comecei a correr.
E corri, corri, corri...

2 comentários:

  1. Caro Eder: Desconhecia este teu lado corredor, e muito menos este teu lado escritor. Parabens pelo texto, pela ótima qualidade, jamais deixe de correr em busca ou da busca de qualquer sonho, realidade ou do que for que seja. Imagino que tens um belo futuro como escritor, entendo que devas procurar algum grupo de literatura, ou escritores para fazer parte, se já não o faz. Continue a correr e a escrever ... SORRIA SEMPRE

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  2. Este texto tem velocidade querido! Que cada um de nós ouse correr quando for necessário, quando for inevitável e que tudo se transforme nos borrões das paisagens mais sombrias que também somos parte.

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